ENSINANDO NUM CRUZEIRO
continuando - Parte V
Como tinha ocorrido o fato da Beni ter largado a ancora sem uma prévia preparação e ter dado no que deu, vejo a oportunidade de fazer algum comentário sobre o assunto.

Como conseqüência deste fato o Gerard após ter esbravejado muito com a Beni, se acalmou e falou:
Não se preocupem pois o que não falta neste barco é ancoras.Vamos substitui-la e amanhã resgataremos a ancora nova.

Se dirigiu ao paiol da popa e com a ajuda do Nene retirou de lá uma ancora que dava inveja ao do Titanic. Devia pesar uns 40 quilos.

Pediu ajuda a metade da tripulação e vagarosamente a levamos até a proa.(±1 hora)
Era uma Ancora tipo Bruce (figura), atualmente a mais utilizada em veleiros.
Retirou a corrente do guincho e a talingou por meio de uma manilha na ancora.

Sem querer causar um conflito, não aguentei e perguntei se ele não tinha uma ancora mais leve, pois não havia necessidade de tanto peso em uma ancora.

Ele sarcasticamente olhou para mim e falou:

Professor, todos sabem que quanto maior o peso da ancora mais segura ficará a embarcação.

De uma forma teórica ele estava certo, mas na prática é complicado.

Bom a operação foi completada com sucesso onde vinte metros de corrente foram largados.
Como o eco marcava 5 metros se fez o calculo de que o filame , a quantidade em metros de corrente que deve ser solta, deveria ser 4 vezes a profundidade local, isto é 20 metros.

A operação foi completada com sucesso onde vinte metros de corrente foram soltos.
Estávamos literalmente grudados à Terra


O Tema de boa ancoragem é fundamental para a segurança da embarcação.
Se formos pernoitar ancorado, devemos procurar um local chamado de fundeadouro que tem as seguintes características:

1- Fundo bom - sem declive.
2- Profundidade adequada.
3- Local abrigado de ventos, correntes e ondas.
4- Fundo de boa tença (areia, cascalho ou lama)

Os fundeadouros são identificados nas cartas Náuticas em locais onde se encontra um desenho de uma ancora (corinthiana).

A prática nos diz que a quantidade de filame, que deve ser solto varia entre 3 à 7 vezes a profundidade local (fundeadores) dependendo do tempo de parada.

Para soltar uma ancora é necessário a sua preparação, é lógico quando necessário, pois existem ancoras já posicionadas para serem solta.

É comum o tripulante visita se propor para soltar a ancora, nunca deixe isso acontecer.

No tempo em que a ancora ficava guardada dentro da lancha, presenciei uma situação em que uma menina de 13 anos lançou a ancora da lancha e não percebeu que o cabo estava sob seus pés.

Ela não foi lançada no mar mas a violência do cabo fez um rombo na sua perna que deixou o osso exposto. Por sorte estávamos perto do clube....

 


No nosso caso que fundeamos o veleiro ao Sul da ilha da Moela, cometemos alguns erros:

Não tentamos identificar o tipo de fundo, não foi feita a preparação da ancora e o local não é um fundeadouro (tinhamos a presença de pequenas ondas).
Como ancoramos no lado Sul da Ilha ficamos sujeito a entrada de uma frente fria.
Como estava monitorando o tempo não me opus a este procedimento.

Como íamos pernoitar naquele local, as consequencias desses erros foram inevitáveis.
Fomos dormir após uma deliciosa sopa regada a vinho.

No meio da noite acordei com estranhos trancos no barco, levantei e fui verificar o que acontecia.
Notei que as pequenas ondas aumentaram no decorrer da noite e que os trancos eram resultados do deslocamento do veleiro freiados pela ancora.
Como o barco estava extremamente seguro, voltei a dormir depois de ter acostumado com aquele barulho.

Na manhã seguinte toda a tripulação reclamou dos trancos, mas fomos tomar café juntos, para depois pensarmos em seguir a viagem.

Chegou a hora de levantar ferros. Foi nessa hora que vimos o estrago.
O Gerard não prendeu a corrente no cunho de segurança, deixando-a direto ao guincho.
Os famosos trancos quebraram a cremalheira do guincho. Imaginem, tínhamos que recolher aquela imensa ancora no braço.

Foi feito um mutirão para realizar o feito, mas nem sinal da ancora se mover, realmente parecia que estávamos grudado ao chão.
A solução foi o Nenê que é um mergulhador experiente dar uma olhada lá embaixo.
Lá foi ele, em poucos minutos voltou e apresentou o quadro .
A nossa ancora estava encravada no vão entre duas imensas pedras e com os trancos ela se prendeu de tal forma que não dava esperança de recupera-la.

Para não aumentar muito essa conversa, o Nenê teve que voltar lá embaixo para separar a corrente da ancora .
Mas a boa notícia é que o Nene recuperou a ancora que a Beni jogou ao mar e a corrente do guincho.

Após esse aprendizado voltamos a pensar na seguência da viagem.