ENSINANDO NUM CRUZEIRO
continuando - Parte VII

Caros amigos, durante o mês de janeiro estive na regata Eldorado-Brasilis que tem como percurso Vitória -Ilha de Trindade -Vitória.

Foi a mais fantástica regata que participei, pelo fato de serem 12 dias enfrentando as mais diversas condições de tempo e mar.

Estive na tripulação do veleiro Corumii, um Dufour 36.

Quem acompanhou a regata pôde verificar o alto desempenho desse veleiro.

O que foi mais incrível é que o secretário de Esportes da cidade de Vitória (patrocinador) é meu clone (sou mais velho) veja figura (estou do lado esquerdo da foto).

Vamos voltar a nossa viagem.
Já era noite quando ouvimos o barulho do motor de popa do bote.
Estávamos apreensivos. As notícias não eram ótimas, mas eram boas.
A cozinheira tinha sido medicada, mas tinha ficado em terra como prevíamos.
Fomos todos dormir, pois teríamos um dia cheio pela frente.

Não consegui dormir direito e antes do por do sol já estava de pé.

Quando subi para o convés para verificar o tempo, ouvi um barulho estranho de que alguma coisa havia caído na água.
Corri para a proa e com uma lanterna presenciei a cena de um gato nadando, ou melhor, se afogando.
Apesar de não ter muita simpatia com o pré-afogado me lancei ao mar.
Senti aquele choque térmico que acontece quando você sai da cama quentinha e pula numa banheira de água fria .
Mas o bichano estava tão apavorado que quando estendi o braço para agarra-lo ele me unhou de tal forma que senti como se alguém tivesse me enfiando vários anzóis no braço.

Gostaria naquele momento de tê-lo esganado, mas a minha parte felina resolveu salvá-lo.

Imagine a dificuldade que tive de nadar com um braço ligado a um gato e o outro enrijecido pelo frio.
Finalmente estávamos salvos dentro do veleiro, e aquela coisa ainda estava grudada no meu braço.
(Seria a Maldição da Ilha de novo?)

O Nenê tinha acordado devido ao barulho e quando ele me viu com o gato emaranhado no meu braço começou a rir sem parar.
Conseguimos acalmar o gato (Chico) e ele se desgrudou, mas estava tremendo.
O meu braço estava todo ensangüentado e o Nenê prontamente fez os curativos.
Nessa altura o dia já tinha nascido e o resto da tripulação estava acordando.

O dia estava encoberto e o vento ainda rondava a Ilha.
Depois do desjejum, onde relatei o acontecido, estávamos pronto para "tentar" levantar ancora mais uma vez.
Resolvemos sair da parte de traz da Ilha motorando, para identificarmos a força do vento e direção.
O vento ainda era o Sudeste e sua velocidade de 18 nós.
Nesta situação não era necessário mudar a nossa tática.

Tentaríamos chegar a Ilha de Alcatrazes com um só bordo.
Levantamos as velas no terceiro riso abrimos a genôa pela metade.
As 09h00 estávamos finalmente velejando.
O estado do mar estava razoável com ondas de 1 a 1,5 metros.
O Gerard estava no timão e era só alegria.

Fui dar uma descansada, pois tinha dormido mal e ainda estava com o braço dolorido.
O tempo foi passando até que acordei.
Pensei que estaríamos chegando em Alcatrazes, mas para minha surpresa ainda estávamos do lado da Ilha Montão.
Algumas vezes sonhei que o Gerard e o Nenê tinham dado bordos, mas na realidade não era sonho, eles deram a volta no quarteirão.

O que teria acontecido? Alguma corrente deve ter empurrado eles para trás, pois segundo Gerard o veleiro estava com seguimento de 4 nós.
Uma maneira simples de verificar se o bordo que estamos é favorável ou não é utilizando a função do GPS chamada VMG.

Em geral os GPS's possuem a função VMG (velocity made good), que nos induz a pensar ser uma velocidade média num certo trecho, mas o que indica realmente é a velocidade real que estamos desenvolvendo sobre a derrota estimada.

Veja no display do GPS Garmin 45XL à esquerda, que devido ao vento não ser favorável, estamos velejando a uma velocidade de 6.9 nós, mas na realidade o VMG é 5,7.

Esta função é indispensável numa regata de percurso, pois nos possibilita determinar qual o melhor bordo a se navegar.


O grande desempenho de nosso veleiro na regata Eldorado/Brasilis foi a utilização dessa função, que é meio despercebida pelos navegadores.


No display do GPS à direita mostra a tela do GPS Garmin 45XL que retrata o que aconteceu em relação a nossa navegação.
Note que a VMG é negativa, isto informa que estávamos andando para trás, mesmo com a velocidade de 4.0 nós.

Pelo fato de termos gasto 5 horas na mesma latitude , resolvemos voltar a Ilha Montão de Trigo e esperar a mudança do vento.

No desenho abaixo podemos ver que o VMG é a velocidade projetada na direção do rumo desejado (WPT).


Olha a maldição do Montão de novo..........